Quando vi aquele gol. (O garoto que comemorou com Evair)
Ele era jovem, hoje teria 25 anos, mas como costumava dizer, possuía pouca vida. Seu coração era fraco, sofria de insuficiência, e ele preferiu aproveitar bem as poucas coisas boas da vida curta que teria, do que sofrer longos anos com tristes tratamentos. E assim foi.
Uma dessas poucas coisas boas de sua vida era o Parmera, como ele costumava pronunciar, evidenciando seu vocabulário de jovem envelhecido, o que se destacava também nas atitudes: não tinha vontade de comprar as camisas atuais, sempre preferia uma retro, ou alguma original dos anos 80, já aposentada pelo pai. As que marcavam grandes momentos dos anos 90 eram sagradas, não gostava nem de tocar. Eu sempre brincava dizendo que iria guardar uma camisa atual para que ele pudesse usar daqui a 30 anos. Mas, ambos sabíamos, era algo praticamente impossível. Ele jamais viveria tudo isso…Olha, ele gostava de ir aos jogos do Palmeiras. Tinha guardados todos os comprovantes. Desde que era pequeno até os 24 anos foram 199 jogos. Para alguém que morava no interior e sofria de doença grave, era um número grande. Sonhava em completar o número 200 comigo, em um jogo da Libertadores de 2009, mas o tempo não deixou.
Uma de suas grandes lembranças, da qual sempre falava, era a do gol de Evair na final do Paulista de 93. Dizia sempre que naquele momento, mesmo sem saber, Evair mudou sua vida. Em um diário que mantinha, escreveu as seguintes palavras: “Eu estava lá, pertinho do gol. Tinha apenas 9 anos, já doente do coração, minha mãe ficou louca porque meu pai resolveu me levar ao jogo. ‘Você vai matar o menino hoje’, ela dizia, mas meu pai respondia que o importante na vida era morrer feliz. E nós fomos. Eu estava eufórico, era minha primeira vez num jogo do Palmeiras, tínhamos que levar aquele título e eu não desisti, sonhei até o fim. E no fim era só Evair e o goleiro. Pênalti. Quando ele chutou, eu disse ao meu pai que ele iria acertar e iria comemorar comigo. Dito e feito, ele acertou. E então todo mundo começou a gritar e pular feito doido, éramos campeões depois de tanto tempo. Eu nunca tinha visto o Palmeiras ser campeão, então foi uma das maiores alegrias da minha vida. Mas eu não comecei a pular, nem gritar, fiquei ali parado esperando o Evair vir comemorar comigo. E então ele veio correndo, e abriu os braços ali, bem na frente de onde eu estava, ele era meu ídolo e pra mim aquilo foi como um abraço. Eu sempre fui muito quieto, não costumava pular nem gritar, mas naquele momento extrapolei. A felicidade era tanta! Eu só me lembro que dei um grito de “campeão”, e quando comecei a pular tudo ficou escuro. Acabei nem vendo o juiz apitar. Foi a primeira vez que passei mal devido ao coração. Minha mãe estava certa, foi ali que comecei a morrer. Mas graças ao Palmeiras, a Evair e ao meu pai, eu comecei a morrer feliz”.
A partir desse dia ele acatou a idéia lançada pelo pai. Sabia que sua vida era curta, mas estava determinado a morrer feliz. E foi assim que, aos 24 anos, conseguiu sorrir ao dar seu último suspiro. Viveu momentos importantes como torcedor do Palmeiras. Presenciou títulos, conheceu jogadores, viu São Marcos brilhando em 99, sonhava em ver o Palmeiras campeão brasileiro nesse ano. Nunca conheceu Evair, mas morreu tendo a certeza de que naquele dia eles comemoraram juntos, pois o ídolo correu de braços abertos na direção daquele pequeno menino sonhador de apenas 9 anos. As pessoas nem imaginam como pequenas atitudes, às vezes involuntárias, podem mudar a vida de alguém. Obrigada, Evair.
Fonte: http://passioneverde.blogspot.com/2009/10/quando-vi-aquele-gol-i-o-garoto-que_9689.html
outubro 22nd, 2009 at 22:49
História de arrepiar.
Esse retorno da torcida com certeza deve ser a grande recompensa da carreira de jogador…
Saber que levou tanta alegria a uma pessoa doente é algo inestimável!
fevereiro 23rd, 2010 at 2:44
Que história mais bonita (apesar de triste). Como disse o Brenno, é de arrepiar!
Mas o Evair também marcou minha história de vida…
Quando era pequeno queria jogar igual ao Evair.
Hoje, já grande, por incrível que pareça, ainda quero.
Nas peladas de bairro, sempre tento correr da mesma maneira que ele: passadas largas, cabeça erguida, a generosidade ao passar a bola, o jeito de chutar a gol. Impossível. Minha camisa não é a n° 9, meu futebol também não.
Mas sempre imagino (e parece real) a torcida verde de fundo gritando que eu sou “o terror”…
junho 14th, 2010 at 20:04
Eterno matador do verdão;
Parabéns e muito obrigado pelas alegrias que você deu a toda nação palmeirense nos anos 90. Naquele campeonato paulista de 93 eu nunca havia assistido ao verdão ganhar um título desde que eu comecei a ser “Palmeirense desde criancinha” ( na época 14 anos de idade), isso era motivo de gozação para um Palmeirense da minha geração. Foi quando você acabou com a gambazada naquela final do paulistão de 93, aquele dia até chorei e te agredeci tanto. Que mais tarde você acabou inspirando a mim e a meu pai quando jogavamos uma pelada aos domingos no interior com nossa famíllia, jogavamos rebatidas que tinhamos que cobrar lances livres, me lembro que tentavamos imitar você com aquela caminhada clássica quando cobrava penaltis. Essa caminhada que era 99,9% chances de gol e que parecia mandar o goleiro cair para o outro lado que a bola. Nem os cientistas jamais desvendarão esse fenomeno rs…
Evair obrigado por tudo e por toda alegria que voce deu ao Palmeirense…
Que Deus te abençoe e a sua família também
espero um dia apertar a sua mão…